Síndrome de Burnout em Oncologia

A síndrome de esgotamento (burnout) de profissionais da saúde é um crescente problema com necessidades urgentes de ação. Embora incrivelmente gratificante, a profissão médica tem fatores estruturais e culturais únicos que facilitam o burnout, como por exemplo o intenso envolvimento profissional, exaustivas cargas de trabalho, carga essa que muitas vezes vem carregada de emoções por envolver doenças, vida e morte no dia-a-dia. Evidências mostram que a síndrome é um problema substancial com consequências preocupantes para ambos os médicos e seus pacientes.

Descrita pela primeira vez na década de 1970, o burnout é uma síndrome que afeta principalmente uma relação do indivíduo com o seu trabalho. É mais comumente definido como um síndrome de exaustão emocional(perda de entusiasmo pelo trabalho), despersonalização(desumanização) e baixo senso de realização pessoal, no contexto de ocupações que envolvem relações humanas. Burnout é uma condição que é distinta de questões pessoais como compaixão, empatia, fadiga ou sofrimento moral. Ao contrário da depressão, os sintomas de burnoutgeralmente resolvem uma vez que há uma mudança no ambiente de trabalho que motivam também uma transformação pessoal.

Existe uma variabilidade considerável na forma como os pesquisadores definem e medem burnoutem medicina, mas muitos consideram alta exaustão emocional ou alta despersonalização como sendo critérios suficientes. Outros incluem também baixa satisfação profissional. Dependendo da definição escolhida, a prevalência de burnoutidentificada pode variar significativamente. Essa complexidade surge porque a tríade clássica dos sintomas pode se manifestar em diferentes graus em cada pessoa.

Estudos sugerem que o esgotamento começa na própria escola de medicina e aumenta durante o treinamento como especialistas na residência médica, tornando-se um  problema em diversas especialidades clínicas e cirúrgicas. Um estudo explorando burnout entre médicos dos EUA encontrou uma taxa de prevalência de 45% (1). Outro estudo especificamente com oncologistas americanos  identificou 44,7% de profissionais demonstrando ao menos um sintoma de burnout(2). Uma recente revisão sistemática e metanálise também em oncologistas constatou que de 4876 participantes em 17 estudos publicados, 32% apresentaram alto índice de burnout. (3). Outra metanálise encontrou frequência de exaustão emocional em 33% dos profissionais, despersonalização em 34% e baixa realização profissional em 25% (4). Outro grande estudo publicado recentemente mostrou incríveis 71% de burnout entre os jovens oncologistas (com 40 anos ou menos) na Europa (5).

Consequências

Burnout tem uma ampla gama de consequências pessoais e profissionais.  É associado a um impacto negativo no atendimento ao paciente, incluindo aumento de erros médicos (6). Também pode reduzir as qualidades profissionais fundamentais, como empatia e altruísmo em estudantes de medicina e médicos jovens (7). Burnout também tem sido independentemente associado a pior desempenho em testes objetivos de conhecimento (8). Além disso, o bem-estar do médico demonstrou afetar o paciente tanto em satisfação como em confiança na relação com o mesmo (9). Médicos podem reduzir o tempo dedicado ao atendimento do paciente, as horas totais de trabalho ou mesmo se aposentar em função da síndrome. O esgotamento também tem inúmeras consequências para a saúde mental e física individual.

Fatores contribuintes

Diversos fatores pessoais, profissionais e organizacionais foram associados a esgotamento do médico. Estas foram predominantemente identificadas através de estudos observacionais e transversais. Embora a causalidade não possa ser inferida, esses achados levantam hipóteses de potenciais fatores de risco.

  • Quantidade e qualidade do trabalho– Estudos mostram relação diretamente proporcional entre quantidade de horas investidas no trabalho e burnout. Além disso, os tipos de atividade profissional também são importantes e contribuem para o esgotamento: aumento da carga de trabalho administrativo, grande número de pacientes atendidos por dia, falta de tempo para atividades de pesquisa, educativas ou mesmo qualquer outra que os médicos julguem importantes (10). A dificuldade de gestão de tempo nas consultas, muitas vezes relacionadas a demandas burocráticas, preenchimento de papéis, sistemas eletrônicos de difícil execução, também estão diretamente relacionados a síndrome em questão. Muitas vezes a carga burocrática de serviços supera o tempo gasto em atendimento direto ao paciente (11). Um estudo mostrou que realização adicional de tarefas relacionadas ao trabalho em casa, inclusive demandas por telefone, também aumentam risco de burnout (12). Estudos também comprovam que oncologistas com tempo de férias inadequado e tempo insuficiente para hobbies, ou seja, desequilíbrio entre vida pessoal e profissional, também são fatores de risco (13). Idade mais jovem e médicos em início de carreira têm sido consistentemente associados a maiores taxas de burnoutem vários estudos. Em médicos residentes de oncologia, a prevalência de exaustão emocional e esgotamento diminui significativamente do primeiro para o terceiro ano de treinamento. Isto ocorre em paralelo com melhora em fadiga e qualidade de vida global (14). Intuitivamente, não são achados inesperados. Os jovens oncologistas estão em curva de aprendizado, deparam-se com muitas situações novas e emocionalmente desafiadoras. Um descompasso entre expectativas de carreira e a realidade profissional durante este período de transição tem também o potencial de exacerbar as angústias (15).
  • Saúde mental e física– Depressão pode ser um precursor ou a conseqüência de burnout, podendo levar a ideação suicída e abuso de álcool e drogas (16). Além da saúde mental, o esgotamento também está associado a múltiplas condições crônicas de saúde, como doenças cardíacas e obesidade (17).  Atividade física, quando realizada insuficientemente, também é um fator de risco.
  • Experiências profissionais estressantes– Experiências traumáticas também aumentam o risco de burnout, como por exemplo, erros médicos, processos por negligência médica, comunicar más notícias aos pacientes, especialmente se os oncologistas se sentirem inadequadamente treinados em habilidades de comunicação. Outro fator importante é a quantidade de novas informações para se manter atualizado em um cenário de aumento exponencial de novas informações científicas (18),
  • Rede de apoio– Relações sociais saudáveis, seja através amigos, cônjuge, grupos profissionais e sociais são fundamentais na equação da qualidade de vida, e quando não praticadas pelos médicos, estes estão sob maior risco de burnout.

Soluções

West et al publicaram uma importante revisão sistemática e meta-análise de intervenções para o burnout médico (18):

  • Intervenções Organizacionais: A maioria das estratégias organizacionais envolvem redução de carga horária e mudança de cultura institucional. As qualidades de liderança dos supervisores médicos em um departamento podem afetar a equipe positivamente em reduzir níveis de burnoute satisfação no trabalho, com a busca contínua para melhora da eficiência, aumento da autonomia dos médicos e estímulo a busca de significado profissional através de um processo de acompanhamento longitudinal do bem-estar dos prestadores de serviço.
  • Intervenções focadas no indivíduo – Vários estudos avaliaram o benefício de pequenos grupos de discussão com médicos. Estas sessões incorporam elementos de mindfulness, reflexãoe compartilhamento de experiências. Há também módulos de aprendizagem estruturados que abordam tópicos como equilíbrio profissional e pessoal, gestão de tempo, cuidados com pacientes, erros do dia-a-dia e relações desafiadoras. Estas intervenções resultaram em uma significativa redução nas taxas de despersonalização em comparação com os participantes do braço controle (19). O objetivo é incentivar a autoconsciência por meio de processo de reflexão que reconecta os médicos com aspectos essenciais de seu trabalho e vida pessoal. Uma extensão da prática reflexiva é mindfulness, com o desafio de nos tornarmos mais atentos aos nosso próprios processos emocionais e as nossas reação ao estresse (20).  Estratégias de autocuidado também têm sido enfatizadas, de tal forma que algumas escolas médicas e programas de treinamento especializados já incorporam o autocuidado em seu currículo formal (21).  Vários estudos estão avaliando a utilidade do treinamento de habilidades de comunicação nos profissionais de saúde.  Dada a natureza emocional da prática oncológica diária, é razoável que cursos de comunicação sejam agora parte obrigatória do treinamento oncológico em serviços na América do Norte e Austrália, embora seu benefício a longo prazo deva ainda deve ser comprovado.
  • Serviço de apoio psicológico– A prestação de tais serviços dentro de um local de trabalho ou através de órgãos profissionais deve ser uma prática padrão, em conjunto com políticas que assegurem que os médicos não sejam discriminados injustamente por eventuais distúrbios psicológicos. A notificação obrigatória de diagnóstico de transtornos de saúde mental pode ser estigmatizante e pode ter impacto negativo aos médicos que optam por procurar atendimento.

Conclusão

A síndrome de burnout é um problema de saúde sério e multifatorial. Reduzir o desgaste da equipe médica exige várias estratégias individuais, bem como um esforço a nível nacional e organizacional para mudanças. Entidades como Sociedade Europeia de Oncologia Clínica (ESMO), Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) já realizaram passos importantes no que diz respeito a esse tema,  através da introdução de sessões abordando o burnoutem congressos internacionais, estimulando debates e estabelecendo recomendações formais.  Outro passo fundamental é reconhecer o bem-estar médico como uma meta organizacional e indicador de bom desempenho. Medir regularmente o bem-estar do médico em instituições proporcionará maior incentivo para a tomada de ações. Isso também possibilita aquisição de dados longitudinais úteis para avaliar melhor o impacto a longo prazo das intervenções e das políticas estabelecidas. Pode também ajudar a rastrear o burnout de modo que a equipe de risco possa receber intervenções precoces. Atualmente, a base de evidências mais completa para o burnout médico vem dos EUA, que tem um sistema de saúde e bem-estar social peculiares, em comparação com outras países de baixa renda, onde o ônus do câncer é substancial e crescente.

Toda essa discussão nos ajuda a ver os médicos não apenas como prestadores de serviços, mas como seres humanos, com compaixão e empatia, entendendo que são também pessoas que tem sentimentos e necessidades muitas vezes não atendidas, seja no ambiente de trabalho ou no âmbito pessoal. Não menos importante é considerar burnoutmédico também como um problema de saúde institucional e politico. Ao promover locais e condições de trabalho adequadas, tanto instituição quando profissional se beneficiam, com aumento de produtividade e bem-estar respectivamente. Embora aparentemente utópico, é uma visão pela qual vale a pena lutarmos.

Eduardo de Figueiredo Vissotto – Oncologista Clínico do Hospital Santa Lúcia e idealizador do Projeto Mãos Dadas – Compartilhando Emoções no Enfrentamento do câncer

Fonte: Burnout in oncologists is a serious issue: What can we do about it?; Murali K, Banerjee S. Cancer Treat Rev. 2018 Jul;68:55-61

Referências Bibiliográficas

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  2. Shanafelt T, Dyrbye L. Oncologist Burnout: Causes, Consequences and Responses. Journal of Clinical Oncology. 2012;30(11):1235-1241.
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  4. Trufelli D, Bensi C, Garcia J, et al. Burnout in cancer professionals: a systematic review and meta-analysis. Eur J Cancer Care (Engl). 2008;6(524-531).
  5. Banerjee S, Califano R, Corral J, et al. Professional burnout in European young oncologists: results of the European Society for Medical Oncology (ESMO) Young Oncologists Committee Burnout Survey. Annals of Oncology. 2017;28(7):1590-1596
  6. Shanafelt T, Mungo M, Schmitgen J, et al. Longitudinal study evaluatingthe association between physician burnout and changes in professional work effort. Mayo Clin Proc. 2016;91(4):422-431
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  9. Haas J, Cook E, Puopolo A, Burstin H, Cleary P, Brennan T. Is the professional satisfaction of general internists associated with patient satisfaction? J Gen Intern Med. 2000;15:122-128
  10. Shanafelt T, West C, Sloan J, et al. Career Fit and Burnout Among Academic Faculty. Arch Intern Med. 2009;169(10):990-995.
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  21. Kushner R, Kessler S, McGaghie W. Using behavior change plans to improve medical student self-care. Acad Med. 2011;86:901-906.

 

Crédito da foto: https://pixabay.com/pt/illustrations/integração-burnout-acho-que-futuro-2141187/

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