Reflexões sobre felicidade

Tema extensamente discutido, mas de difícil execução no nosso dia-a-dia.

A própria evolução de seu conceito ao longo da história traduz essa complexidade. Tradicionalmente relacionado a conceitos materiais como a beleza física, riqueza, saúde e poder, a felicidade passou a ser direito constitucional da sociedade e naturalmente incorporada a estados psíquicos com o desenvolvimento da psicologia positiva. Hoje é um dos principais objetivos da raça humana. Atualmente, para sermos felizes, devemos não apenas cultivar e praticar estados psicológicos positivos (resiliência, otimismo, gratidão, contentamento) e boas relações humanas, mas também ressignificar nossos propósitos. Diante da efemeridade e impermanência da felicidade, ao invés de objetivarmos sua busca eterna, talvez  seja mais factível e saudável permitir e aceitar o fluxo natural da vida entre nossos altos e baixos.

 

Epicuro, na Grécia Antiga, já dizia que ficamos felizes quando desfrutamos de sensações agradáveis e ficamos livres das desagradáveis.

O amor, a alegria, a saúde, a saciedade, o prazer sexual, o contentamento, a segurança e a serenidade são exemplos de sensações agradáveis. Emoções como tristeza, medo, raiva, além de estados afetivos como ansiedade, angústia, dor e sofrimento, costumam diminuir sensação de felicidade.  Claude Robert Cloninger considera que “felicidade” é a expressão que traduz a compreensão coerente e lúcida do mundo; ou seja: a felicidade autêntica requer uma maneira coerente de viver. Isso inclui todos os processos humanos que regulam os aspectos sexuais, materiais, emocionais, intelectuais e espirituais da vida.

No nível psicológico, a felicidade depende mais das expectativas do que das condições objetivas. A má noticia é que, a medida que as condições melhoram, nossas expectativas inflam. Sensações prazerosas sempre serão insuficientes. Buda sugere que devemos diminuir nossos anseios por sensações prazerosas, controlando nossa mente a ponto de perceber nossas sensações tais como elas são – efêmeras e inexpressivas. Assim, perdemos interesse em perseguí-las impetuosamente.

 

O historiador Yuval Noah Harari contextualiza a evolução do pensamento humano: “O sucesso alimenta a ambição e nossas conquistas recentes estão impelindo o gênero humano a estabelecer objetivos ainda mais ousados. Depois de assegurar níveis sem precedentes de prosperidade, saúde e harmonia e considerando tanto nossa história pregressa como nossos valores atuais, as próximas metas da humanidade serão provavelmente a imortalidade, a felicidade e a divindade. Reduzimos a mortalidade por inanição, a doença e violência. Objetivaremos agora superar a velhice e mesmo a morte. Salvamos pessoas da miséria abjeta; temos agora de fazê-las positivamente felizes. Tendo elevado a humanidade acima do nível bestial da luta pela sobrevivência, nosso propósito será fazer dos humanos deuses e transformar o Homo sapiens em Homo deus”.

 

Em um revisão sistemática de felicidade, tentando aplicar ciência a esse conceito extremamente subjetivo, a autora Renata Barboza Ferraz e colegas, identificaram fatores que associam-se positivamente com a felicidade: comprometimento pela fé, seja por meio da religiosidade (sistema organizado de crenças e práticas ritualísticas), ou espiritualidade (busca de significado de vida e estabelecimento de uma relação transcendente com o sagrado); boas relações sociais  e aspectos da personalidade:  Otimismo, Resiliência e Gratidão. Curiosamente, uma vez superado o limiar de subsistência com dignidade (comida, segurança, água, saneamento básico), o aumento do poder aquisitivo não se correlaciona com incremento significativo da percepção da felicidade.

O Estudo sobre o Desenvolvimento Adulto , trabalho mais longo sobre felicidade,  vigente desde 1938 em Harvard, acompanhou muitos jovens durante toda a vida, monitorando seu estado mental, físico e emocional e continuou com as seguintes gerações. O atual diretor do estudo, o quarto desde o início, é o psiquiatra americano Robert Waldinger, que conclui:  “O que descobrimos é que, no caso das pessoas mais satisfeitas em seus relacionamentos, mais conectadas ao outro, seu corpo e cérebro permanecem saudáveis ​​por mais tempo”.

 

Muito temos a aprender também com as palavras do teológo e filósofo Rubem Alves:” A beleza e a alegria são divinas. São elas que dão ao homem o poder de contemplar e viver as tragédias sem serem destruídas por ela (…) Para enfrentar o trágico é preciso estar possuído pela beleza. (..) E é neste contexto que atuam a arte: a natureza formada pela imaginação para nos dar novas experiências de prazer e alegria, através da educação do sentidos(…)E a criança, aquilo que de mais  belo, leve, criativo e alegre existe em nós, eternamente”.

 

O oncologista Drauzio Varella faz uma reflexão nesta mesma linha:  A felicidade continuada infelizmente é privilégio apenas da infância. Só as crianças conseguem ser felizes por dias inteiros, entretidas nas brincadeiras, perdidos nos emaranhados da imaginação. Na fase adulta, ela é pássaro de vôo rápido que nos visita já pronto para bater asas assim que o primeiro pensamento incômodo nos vier a mente. A brevidade desses encontros, talvez explique a mania de colocar a felicidade sempre em um sitio distante daquele em que nos achamos. Ah, como éramos ou seremos felizes…A saudade dos tempos em que boa ventura fazia parte do cotidiano é fruto de uma armadilha da memória (…) Sobrevivem apenas as lembranças carregadas de emoções. Já projetar a felicidade para dias futuros, se por um lado é força que nos move em direção a um mundo melhor, de outro, torna o presente um fardo difícil de suportar.”

 

Fica aqui um desafio. Que a cada sorriso de um bebê e brincadeira de uma criança nos lembremos: “tudo é um grande brinquedo: haverá coisa mais alegre e efêmera? E é isso que nos ensina a morte, que a vida é brinquedo, não pode ser levada a sério – o que nos torna humildes e livres das alucinações de importância e poder (…)

 

São reflexões de um humilde ser humano que acredita no bem como uma virtude natural, no incrível poder das relações humanas saudáveis e profundas, no otimismo, leveza e plena atenção ao presente como potentes ferramentas que eleva nossa condição humana. São as premissas que permeiam minhas relações pessoais, afetivas e profissionais. São as grandes descobertas de minha vida, através do amor cultivado e confiança construídos em minha família, no meu casamento, e no circulo de verdadeiras amizades. São valores reforçados através do aprendizado que adquiro no dia-a-dia com meus queridos pacientes e mais recentemente com cada sorriso simples, encantador e despretensioso de meu bebê.  São as bases que sustentam minha vida e permitem considerá-la feliz. São os conceitos que procuramos compartilhar e incentivar em nossos pacientes, acompanhantes e profissionais de saúde através do Projeto Mãos Dadas. Em busca não apenas de um mundo melhor, mas também mais feliz.

Principais Referências

  • Renata Barboza Ferraz, Hermano Tavares, Monica L. Zilberman; Felicidade: uma revisão; Rev. psiquiatr. clín. vol.34 no.5 São Paulo 2007
  • Harari, Yuval Noah; Homo Deus: uma breve história do amanhã / Tradução Paulo Geiger. — 1a ed. — São Paulo: Companhia das Letras, 2016

Eduardo de Figueiredo Vissotto – Oncologista Clínico e idealizador do Projeto Mãos Dadas – Compartilhando Emoções no Enfrentamento do câncer

2 Comentários

  1. Jane Mahalem

    Oi Eduardo! Gostei bastante do seu texto. Acho sempre necessário tratarmos da efemeridade para reconhecermos nosso grande projeto de vida. Também achei muito bem escolhidas as citações e seus autores. Parabéns pelo seu belíssimo trabalho na valorização da vida. Grande abraço.

    Responder

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Free WordPress Themes, Free Android Games