Quando sou caridoso, estou ajudando ou sendo ajudado? Reflexões sobre o comportamento altruísta.

Quando sou caridoso, estou ajudando ou sendo ajudado? Reflexões sobre o comportamento altruísta

 

Caridade e Altruísmo são qualidades  fascinantes, porém pouco debatidas ou estudadas em sua essência pelo público geral. Por estarem muito relacionadas a ideologias ou religiões, são aceitas ou almejadas, porém pouco refletidas sobre suas reais características. Se tentássemos analisar essas qualidades do ponto de vista mais neutro possível e de forma embasada em evidências, quais conclusões podemos chegar? Será que poderíamos afirmar, por exemplo,  que mais que uma questão ideológica ou moral a caridade e o altruísmo são fatores evolutivos de nossa espécie? Poderíamos dizer que fazer o bem é uma questão de saúde individual e coletiva? Ou mais ainda, diferenciar se tais qualidades são aprendidas ou instintivas no ser humano? 

  Facilmente podemos observar no mundo animal que existe cooperação entre indivíduos da mesma espécie. Andar em grupos, caçar, entre outros, fornece uma vantagem evolutiva de perpetuação e manutenção desses. Entretanto, quando falamos de altruísmo estamos ampliando esse conceito de cooperação. Por definição científica em biologia, altruísmo é o comportamento que beneficia algum organismo sem grau próximo de parentesco, enquanto aparentemente esse comportamento tem um custo para quem o pratica, podendo até ser detrimental. Esse custo basicamente se refere a capacidade reprodutiva de quem pratica o ato altruísta(1,2). Basicamente seria beneficiar o próximo de forma que muitas vezes sua atitude inicialmente te prejudica e somente ajuda a quem recebeu essa. Vale a pena salientar que comparar altruísmo entre animais e entre humanos requer alguns cuidados. Para humanos o altruísmo verdadeiro é aquele em que o indivíduo de forma consciente tem uma atitude que apenas beneficia o próximo no curto prazo. Já para animais estamos falando de seres ainda sem consciência, logo, a medida de benefício ou custo se dá pela possibilidade no curto prazo de se reproduzir e perpetuar sua espécie ou não. Uma atitude que cause o benefício de perpetuação da espécie não seria altruísta , seria por interesses próprios, já uma atitude em que inicialmente não se observa uma vantagem para reprodução ( o que seria um custo) seria altruísta(2). 

 Um dos melhores exemplos de altruísmo ocorre em relações simbióticas entre peixes predadores (espécie Epinephelus striatu,por exemplo) e peixes que se alimentam de ectoparasitas dos primeiros( espécie Labroides dimidiatus, por exemplo). São aqueles peixes menores que entram na boca de outro maior para se alimentar de pequenos parasitas. O peixe maior simplesmente permite a presença do menor e não fecha a boca para se alimentar dele. Inicialmente podemos pensar que, na verdade, essa relação seria de troca simples já que enquanto um se alimenta, o outro se vê livre de vermes que podem causar doenças, assim ambos poderiam se manter vivos e reproduzir normalmente, perpetuando a espécie. Porém, após análise do conteúdo de alimentos nos estômagos dos peixes menores, o que se descobriu é que eles não dependem de parasitas para sobreviver demonstrando que essa atitude vai além de se manter alimentado, sobreviver e reproduzir. Mesmo quando esses são alimentados por ração no criatório , ao serem colocados com os peixes predadores que estão livres de parasitas eles mantém o comportamento de vasculhar a boca desses por anos. Um atitude claramente altruísta com benefício muito mais direto para o próximo( 1). 

Ao analisarmos o comportamento altruísta ou caridoso em humanos, a complexidade do assunto vai além, já que agora estamos falando de seres dotados de consciência , como dito anteriormente. Jesus Cristo é o maior nome nesse quesito, mesmo quando se questiona, ou não se acredita em seus milagres e sua santidade. Digo isso porque foi ele quem elevou o conceito a outro patamar em sua época e que mesmo nos dias de hoje são dificilmente cumpridos. Ele salientou o conceito de caridade e altruísmo a todos independente de credo, raça ou religião.E ,mais ainda, a caridade e amor inclusive, ou principalmente, aos inimigos, deixando bem claro que quanto mais se pratica o bem mais todos se beneficiam em algum momento. Tal fato é tão importante que vários artigos científicos atuais sobre assuntos diversos se analisado em seus princípios estão comprovando  o que ele disse há 2000 anos atrás. Como exemplo podemos citar um dos termos mais usados em artigos de economia e sociologia , referente a Teoria dos Jogos, o “Dilema do Prisioneiro”. Segundo esse dilema, quando dois presos são interrogados separadamente sobre algum crime em que podem ser culpados ou não, é possível se provar matematicamente que se ambos cooperarem e tiver uma atitude altruísta um com outro a chances de ambos saírem beneficiados é maior do que quando um tenta entregar o outro(3).

Com relação às suas características intrínsecas da benevolência, um estudo publicado na revista Nature no ano de 2007(4) é bastante elucidativo. Nesse estudo crianças de 6 e 10 meses deveriam escolher entre dois bonecos de teatro. Antes de escolher eles assistiam uma encenação em que esses dois bonecos ajudavam ou prejudicavam um colega necessitado. No momento da escolha a grande maioria das crianças escolhiam o boneco que tinham uma atitude altruísta. Assim, podemos inferir a hipótese que a atitude benevolente e altruísta possivelmente é natural nos seres humanos desde o nascimento. Seguindo a mesma linha, outro estudo publicado na mesma revista no mês passado demonstra que com exercícios e jogos didáticos simples é possível  não apenas estimular o comportamento caridoso, como também manter o estímulo para uma segunda atitude posterior( 5). Além disso, existem dados que sugerem que a atitude benevolente é influenciada pela idade, sendo mais prevalente em pessoas mais idosas (6) e que analisando o cérebro de pessoas que praticam exercícios que estimulam o altruísmo e compaixão há diferença estruturais quando comparado aqueles que são neutros, demonstrando que esse comportamento disciplinado pode modificar o cérebro (7,8).

No que tange aos benefícios para saúde, podemos dizer que na verdade muitas vezes o maior beneficiado é quem pratica o ato. A caridade é uma fonte de recursos para lidar com os diversos fatores estressantes da vida e, assim, manter-se saudável. O hábito  e envolvimento em atividades com esse fim permite que a pessoa amplie seu número de amigos, beneficiando seu bem estar social e emocional. Por estar relacionada a questões religiosas, muitas vezes fortalece seu sentimento de conexão com o divino e, por fim, não deixa de ser uma oportunidade de se praticar alguma habilidade laboral favorecendo seu bem estar profissional. Quanto ao bem estar físico existem dados que demonstram uma maior atividade parassimpática de nosso organismo diante do comportamento sociável e altruísta, a atividade parassimpática é justamento o sistema que contrabalanceia o stress e suas consequências danosas ao nosso organismo (9).

Fazer o bem aparentemente segue uma lei natural e existencial presente nas mais diversas situações do mundo como um todo. Podemos encará-la desde uma visão puramente evolucionista até um ponto de vista totalmente espiritual. A grande lição que fica é a de que ,independente da situação , optar por atitudes benevolentes favorece a todos envolvidos no processo. Talvez o que mais se admira em caridade é que aqueles que praticam tal ato são exemplos do que dizem, mais ainda demonstram uma coragem que rompe barreiras e épocas. Como diz o ditado “ a palavra convence, mas o exemplo arrasta multidões”.Espero que cada vez mais possamos dar as mãos aos nossos semelhantes e caminhar juntos para o bem comum.

 

Dr. Gabriel Machado Leite

Oncologista

Idealizador do Projeto Mãos Dadas.

Referências Bibliográficas: 

 

1-  . Trivers, Robert L. The Evolution of Reciprocal Altruism; The Quarterly Review of Biology, Vol. 46, No. 1 (Mar., 1971), pp. 35-57Published.

 

2- Okasha, Samir.  “Biological Altruism”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2013 Edition), Edward N. Zalta (ed.).

 

3- McNamara J. M., Barta Z. & Houston A. I. Variation in behaviour promotes cooperation in the Prisoner’s Dilemma game. Nature 428, 745–748 (2004).

 

4- J. Kiley Hamlin1, Karen Wynn1 & Paul Bloom. Social evaluation by preverbal infants.  Nature  450,22 November 2007.

 

5- Valerio Caprar, Glorianna Jagfeld, Rana Klein, Mathijs Mul & Iris van de Pol.  Increasing altruistic and cooperative behaviour with simple moral nudges. Nature Research. Scientific Reports | (2019) 9:11880.

 

6-  Jason Hubbard, William T. Harbaugh, Sanjay Srivastava, David Degras, and Ulrich Mayr. A General Benevolence Dimension that Links Neural, Psychological, Economic, and Life-span Data on Altruistic Tendencies. J Exp Psychol Gen. 2016 October ; 145(10): 1351–1358.

 

7- Valk et al.Structural plasticity of the social brain: Differential change after socio-affective and cognitive mental training. Sci. Adv. 2017;3: e1700489.

 

8- Haakon G. Engen 1,2*, Boris C. Bernhardt 1,3*, Leon Skottnik 4,5, Matthieu Ricard 6, Tania Singer1. STRUCTURAL CHANGES IN SOCIO-AFFECTIVE NETWORKS: MULTI-MODAL MRI FINDINGS IN LONG-TERM MEDITATION PRACTITIONERS. J.neuropsychologia.2017.08.024.

 

9- Boris Bornemann, Bethany E. Kok,  Anne B¨ockler , Tania Singer. Helping from the heart: Voluntary upregulation of heart rate variability predicts altruistic behavior. /Journal of Biopsychology .2016.07.04.

 

Créditos: Foto de lalesh aldarwish no Pexels

 

3 Comentários

  1. Ermelinda A. L. B. Nazaré

    Artigo muito enriquecedor nos remete a uma profunda reflexão.
    Parabéns e obrigada.

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  2. Marcelo Salles

    Dr Gabriel, que texto bem construído e embasado. A caridade alimenta o corpo e a alma.

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  3. Vanderlúcia Geralda da Silva

    Altruísmo: palavra-chave para praticar o amor

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