Por que os Homens morrem antes das mulheres? Uma reflexão durante o Novembro Azul;

Estudos estatísticos apontam que os homens morrem em média 5 anos antes do que as mulheres. Tal dado não impressiona quando analisamos a faixa etária de adultos jovens ou adolescentes, o senso comum até explica essa questão: sabemos que o homem nessa idade está mais propenso a riscos e excessos. Porém, quando analisamos em idades mais avançadas a média maior de mortalidade entre homens permanece e aí vem a pergunta: Qual seria o motivo de homens morrerem em idade menor que as mulheres?

Um estudo conduzido na Universidade de Rutgers nos Estados Unidos foi conduzido para responder esse fato curioso. Publicado na revista  Preventive MedicineThe Journal of Health Psychology  os pesquisadores observaram que,  após entrevista com um total de 500 homens , quanto maior a autoestima e mais ainda o senso de masculinidade- que o homem deve ser forte, corajoso e auto suficiente-  menor a procura por assistência médica e menor a preocupação com problemas de saúde. Ao mesmo tempo observou que esse grupo de pessoas procuram mais médicos do sexo masculino e paradoxalmente estão mais propensos a omitir e até diminuir seus sintomas ou dados na hora da consulta. A conclusão é de que uma das possíveis causas para a maior mortalidade de homens em idades menores que as mulheres é justamente tal comportamento, o sentimento de masculinidade associado a uma autoestima elevada e de autossuficiência impede os homens de procurar ajuda ou se sentirem basicamente humanos.

A campanha conhecida hoje como novembro Azul surgiu a partir de um a reunião entre amigos que decidiram angariar fundos para instituições de caridade que visavam principalmente estimular a saúde masculina. Para isso combinaram que todos deixariam o bigode crescer durante o mês de novembro que por coincidência era o mês em que também ocorria o dia mundial de combate ao câncer de próstata. A campanha iniciou-se na Austrália e foi um sucesso, em pouco tempo ganhou corpo e se difundiu pelo mundo inteiro e hoje em quase todos os países do mundo se fala sobre o Novembro Azul.

Sabemos que o câncer de próstata é o tumor que mais ocorre em homens, após o câncer de pele não melanoma, possui uma incidência crescente de acordo com a idade e é a 6 º maior causa de mortalidade entre os cânceres. Quando descoberto ainda localizado é perfeitamente curável e maiores as chances de sucesso terapêutico sem efeitos colaterais como impotência ou incontinência urinária. A grande dificuldade encontrada e observada por nós médicos para o rastreamento e tratamento precoce, além da falta de acesso em regiões mais pobres, é a resistência dos homens em realizar o toque retal, que é um exame essencial de rastreamento com duração média de 5 a 10 segundos. Voltamos a citar aqui que o sentimento de masculinidade que seria ferido ao se manipular área tão sagrada e intocável nos homens faz com que grande parte das pessoas evitem consulta com seu médico a partir dos 50 anos de idade. Assim observamos novamente que os dados observados no estudo aqui citado corrobora o que se vive no dia a dia dos consultórios.

Como homem e vivendo ainda numa sociedade masculinizada e cheia de preconceitos concordo que não é fácil se colocar em uma posição de vulnerabilidade total para alguém estranho e mais ainda expor uma área intima tão “preciosa” para se evitar uma possibilidade de doença. O argumento que nem todos morrem de câncer e que as vezes é melhor jogar com a sorte é muito forte e difícil de contra argumentar. Porém, se fizermos uma reflexão mais tranquila e racional, considerando os riscos de impotência e incontinência urinária em casos de tumores mais avançados, não seria difícil concluir que um exame tão curto pode prevenir na verdade o maior exemplo real da masculinidade: a capacidade de manter relações sexuais por mais tempo e de não ter que usar uma fralda como uma criança. Paradoxalmente o toque retal e os exames preventivos nos ajuda a manter nossa autoestima e masculinidade elevadas por mais tempo, permitindo o uso de nossas potencialidades enquanto vivos. No final, o que a população masculina precisa entender é que os programas de rastreamento estão aí para ajudar não só aumentando o tempo de vida, mas também a qualidade de vida de todos. Em mês de Novembro Azul espero que possamos quebrar velhos paradigmas e reconhecer o que de fato nos ajuda a manter nossa masculinidade e autoestima elevada por mais tempo.

 

Dr. Gabriel Machado Leite

Oncologista

Fontes: 

  1. Himmelstein M. S.  Sanchez D. T.. Masculinity in the doctor’s office: Masculinity, gendered doctor preference and doctor–patient communication. Preventive Medicine Volume 84, March 2016, Pages 34-40.
  2. Himmelstein M. S. ; Sanchez D. T. . Masculinity impediments: Internalized masculinity contributes to healthcare avoidance in men and women. Journal of Health Psychology. Vol 21, Issue 7, 2016.
  3. www.inca.gov.br/

 

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