Por Que Mãos Dadas?

Certo dia me lembrei de um ensinamento que um grande amigo e professor( Ivan Castro) me fez, ele me ensinou que em nossa vida muitas vezes nos deparamos com aquilo que podemos chamar de “pedra de Rubi”. A princípio parece um obstáculo em nosso caminho, mas com o decorrer do tempo percebemos que foi um “vento favorável” que mudou nossas vidas de forma tão positiva que mal poderíamos imaginar.

Acredito que a primeira “pedra de Rubi” em minha profissão se chama Moacir. Paciente, 73 anos, corpo franzino, mãos fortes com dedos amarelos característicos de quem fumava muito. Internado em um hospital público para investigar uma perda de peso importante e “desânimo com a vida” – como o próprio dizia. O senhor Moacir foi meu primeiro paciente e que por sugestão de meu pai anotei o nome como marco para a vida que escolheria. Não foi difícil diagnosticá-lo com câncer de pulmão, os anos de tabagismo exagerado cobraram seu preço e está ali para tomarmos as condutas iniciais. Mas para quem não pensava de forma alguma em ser um dia oncologista, um paciente complicado em termos clínicos (“pedra no caminho”) me mostrou quão grande é a troca entre médico e paciente quando nos deparamos com algo que realmente nos chama para questionar as questões de vida e morte. Seu Moacir, com seu jeito simples, me passava conhecimentos profundos sobre questões do que realmente importa em uma vida: “fique o maior tempo que puder com seus familiares”, “tudo passa, dê menos importância ao dinheiro” – e assim foi.

Depois do seu Moacir,  conversar com pacientes oncológicos se tornou algo viciante. A oportunidade de absorver conhecimento de alguém que está vivendo o momento mais significante de sua vida não tem preço. No decorrer de plantões menos movimentados, estava eu procurando pacientes dispostos a me passar conhecimentos para a vida. O paciente achava que eu estava ali para entregar alguma calma ou esperança, mas mal sabiam que eu estava ali para receber a calma e esperança de quem viveu de alguma forma e, se tivesse outra oportunidade, valorizaria tudo o que era me passado em uma conversa à beira leito. Sendo assim, minha escolha sobre ser oncologista havia sido feita sem eu mesmo perceber.

Chegando  na especialização de Oncologia, acreditava que encontraria um ambiente maior de troca e aprendizado, algo mais estruturado para as questões da vida. Esperava um centro que ajudasse o paciente a direcionar e tirar proveito de questões essenciais afloradas diante de algo ameaçador. Porém, o que encontrei foi mais do mesmo. Apesar de professores humanos e de excelência que muito me ensinaram, as rotinas e obrigações excessivas do serviço público não possibilitam um ambiente realmente enriquecedor que todos os pacientes oncológicos necessitam. Me questionavam sempre sobre o que mais poderia ser feito, pois a quantidade de pacientes/professores só aumentavam com o passar do tempo. Posso facilmente nomear alguns grandes mestres da vida: Mirtes, Luiz Rodrigo, Francisco Cruz, Marcia, Vanessa, Francisca, Antonia, entre outros… A necessidade de tentar algo para essa troca entre pacientes, familiares e interessados se fazia pungente.

A pergunta sobre o que mais poderia ser feito me inspirou desde os tempos de residência. Desde então iniciei um estudo ostensivo sobre uma visão mais humanizada e enriquecedora sobre a Oncologia. Visitei grupos de apoio relacionados, grupos de apoio não específicos de Oncologia, mas com princípios semelhante. Por último tive mais um “vento favorável” neste caminho, um oncologista que também, há alguns anos, percorria seus caminhos e obstáculos e que estava disposto a unir forças nesse propósito.  Nasceu disso o Projeto Mãos Dadas: Compartilhando Emoções no Enfrentamento do Câncer.

Caso me perguntem por quê Mãos Dadas, aqui vão algumas respostas: Porque todo sofrimento acometido pelo câncer necessita ser direcionado para algo engrandecedor e positivo, porque ninguém tem culpa de ter esse diagnóstico, porque os pacientes precisam entender que são grandes professores da vida, que o sofrimento pode ser uma fonte inesgotável de autoconhecimento e que, nesse momento, compartilhar é o grande segredo.

Gabriel Machado Leite

Oncologista

Co-fundador Projeto Mãos Dadas: Compartilhando Emoções no Enfrentamento do Câncer.

Créditos: <a href=”https://www.freepik.com/free-photos-vectors/love”>Love photo created by rawpixel.com – www.freepik.com</a>

11 Comentários

  1. Carmem Lucia

    Tudo na vida tem um significado… vc foi escolhido ( a dedo) por Deus, para fazer a diferença na vida de seus pacientes!! Fui agraciada por ser uma destas pacientes!!! Obrigada! Que Deus ilumine seus passos, sempre.

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    • Gabriel

      Deus escolhe a todos, querida Carmen, Só precisamos ter ouvidos para ouvir. É um privilégio ter cruzado seu caminho. Que Deus te ilumine.

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  2. Carmen Vissotto

    Lindo e comovente depoimento! Que as “pedras de rubi” do seu caminhar te fortaleçam cada vez mais e te façam gigante na sua evolução como ser humano! Parabéns, Gabriel!🙏🙏🙏

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    • Gabriel

      Muito Obrigado , Carmen. Que tenhamos conexões cada vez maiores com almas de bem. Um forte abraço.

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  3. Nilene Machado

    Desejo todo sucesso do mundo para esse projeto lindo! Continue sonhando, perseguindo seus sonhos e ajudando as pessoas!

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    • Gabriel

      Amén!!!!! Tivemos bons exemplos de amor desde o berço. Um forte abraço!

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  4. Célia Oliveira

    Parabéns pela iniciativa e por uma medicina mais humanizada. Deus guie seus passos!

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    • Gabriel

      Muito obrigado, Célia. Palavras assim que nos motiva.

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  5. Marisa Gomes

    Oi Gabriel, recebi do Ivan o link sobre o projeto. Entrar em contato com esse conteúdo abriu o dia com positividade. Ações assim enchem o coração de fé e esperança por um mundo mais bonito. Admiração e gratidão pela iniciativa de vocês! Desejo coragem para e muita luz.

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    • Gabriel

      Muito obrigado pelas palavras, Marisa. Agradeço muito pelo retorno.

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