Não se preocupe doutor, tenho uma cura infalível para o câncer!

              Saúde e bem estar  é um dos temas mais abordados em qualquer veículo de informação na atualidade. A todo tempo diversos “gurus da saúde” com dietas inovadoras e exercícios mirabolantes surgem de maneira avassaladora e também desaparecem na mesma velocidade que surgiram. Em busca da vida eterna, terapias também entram na jogada e cada vez mais somos abarrotados com um volume imenso de  informações que muitas vezes ao invés de nos guiar nos confundem. Na oncologia não é diferente, quem nunca ouviu que o suco da fruta que só existe no país que ninguém ouviu falar e não conseguimos nem escrever o nome cura “qualquer tipo de câncer”? Ou que ovo causa câncer, Coca Cola, produtos em conserva, etc? Certa vez um paciente disse que depois que foi diagnosticado com câncer, todos os dias algum amigo ou familiar que o visita traz uma receita infalível da cura, ao ponto de não saber mais o que é necessário para enfrentar a doença.Diante de tanta informação, entender os princípios norteadores de saúde e doença é essencial para saber lidar com todo o processo de enfrentamento.

 

               O desenvolvimento da ciência nos permitiu entender mais sobre a doença em si, seus mecanismos de propagação, fatores de risco e, para nossa sorte, terapias modificadoras. Tentando esmiuçar microscopicamente os diversos tipos de patologias e todos fatores relacionados à ela, entendemos cada vez mais de suas diversas vias moleculares ao ponto de hoje termos drogas direcionadas para receptores específicos. Podemos classificar esse modo científico de conhecimento e desenvolvimento de terapias atual como modelo Patogênico da Doença.

 

               Na década de 60 do século passado iniciou-se o que na minha opinião seria umas das maiores revoluções sobre o conhecimento da saúde, graças a um medico social chamado Aaron Antonovsky. Ele estava estudando os efeitos e sintomas da menopausa em mulheres israelitas e algo chamou sua atenção. As mulheres que tinham sobrevivido aos campos de concentração sentiam menos o chegar da idade. Tal constatação o intrigou: “Como mulheres que deveriam carregar os mais pesados traumas devido tamanha tortura ao invés de serem mais doentes, na verdade se mantiveram mais saudáveis ao longo da vida?” Ampliando mais, ele fez a pergunta certa no momento certo: “Quais seriam os fatores que nos fazem saudáveis?”, ao invés de nos preocuparmos apenas com o que nos faz doentes. Desse momento em diante ele desenvolveu todo  o seu trabalho tentando encontrar a resposta para tal questionamento.

 

                Disso surgiu o  que podemos denominar Salutogênese com todos seus termos e conceitos. Ele percebeu que aquelas que sobreviveram aos campos de concentração tinham algo a mais que denominou Senso de Coerência. De forma simples, aqueles que entendiam o porquê daquilo que estavam vivendo ( compreensibilidade), mantinham o sentimento que podiam utilizar os diversos recursos para lidar com a situação ( manuseio) e sentiam que precisavam permanecer vivos por algum motivo ( propósito), conseguiam sair dali vivos. Aprofundando mais percebeu que na vida temos os mais diversos fatores estressores, sejam eles um ritmo exaustivo de trabalho, traumas psicológicos, infecções, exposição a fatores poluentes, entre outros. Fatores estressores mal manejados causam as chamadas doenças que entendemos. Por outro lado, temos o que podemos chamar de recursos para lidar e manejar esses agentes estressores, evitando assim que eles gerem a doença. Esses recursos podem ser Gerais, como o apoio familiar e espiritual, ou Específicos, como um medicamento específico para tal doença. Uma relação equilibrada entre todos esses fatores seria o que nos faz saudável.

 

               Para facilitar o entendimento, podemos comparar nossas vidas como um velejo em alto mar. Nessa travessia teríamos os diversos agentes estressores que podem fazer nosso barco afundar ( causar doença) como as ondas grandes, icebergs, rochas, ventos e corais. Como contraponto temos os Recursos Gerais para nos ajudar como a qualidade do barco em si, equipe de marinheiros, GPS. O Recursos Específicos seriam o mapa de determinada ilha em que iremos navegar, as condições de tempo do dia e previsão futura. Por último, o Senso de Coerência seria o capitão que ao saber usar os recursos e entender os agentes estressores os manejam de forma que consigamos chegar ao nosso destino ( evitando que a doença se desenvolva ao longo dos anos). Com essa visão podemos entender também que a visão dualista da vida como doente versus saudável não seja a que complete todo o espectro. Na verdade, em determinados momentos da vida podemos dizer que estamos mais saudáveis que doentes ( “velejando em mar calmo”)  e em outros mais doentes que saudáveis( “velejando em mar mais turbulento”), mas dificilmente totalmente doentes ou totalmentes saudáveis, inferindo um equilíbrio dinâmico da vida. Mesmo nos considerando saudáveis em algum momento da vida se formos avaliar bem podemos ter uma miopia , alguma alteração na postura( lordose ou escoliose). Por outro lado, mesmo com alguma doença, nem todos os órgãos estão afetados já que caso contrários estaríamos mortos. A conclusão que chegamos é que não existem pessoas totalmente saudáveis nem pessoas vivas totalmente doentes, existem pessoas navegando pelo “Mar da Vida”.

 

                  Mais do que se prender somente em informações excessivas sobre o que pode ou não causar câncer e as diversas doenças, é necessário entendermos também os princípios que norteiam e que fazem alguém saudável. Não devemos manter a mente dualista de julgamento com um modelo sendo melhor ao outro, integrar o Modelo Patogênico de pensar com Salutogênese nos permite ter uma vida proveitosa e com plenitude, equilibrando fatores geradores de doença e fatores geradores de saúde. Mais ainda, nos iguala como seres humanos já que todos são saudáveis até certo ponto e todos doentes até certo ponto. A busca desse equilíbrio dinâmico nos mostra que é preciso evitar os excessos, seja ele de fatores de risco, seja de zelo e busca insana por saúde física exclusiva. Como diz o poeta: “ viver é uma arte” e não existe arte sem sabedoria e equilíbrio.

 

Referências:

  • Maurice B. Mittelmark,Shifra Sagy, Monica Eriksson, Georg F. Bauer, Jürgen M. Pelikan, Bengt Lindström, Geir Arild Espnes. The Handbook of Salutogenesis. Ed. Springer Nature.2016.

1 Comentário

  1. Carmem Lúcia Luz Caixeta

    Ótimo texto!!! Boas reflexões que nos remetem a avaliar nosso estilo de vida e fazer escolhas mais saudáveis em todos os aspectos.

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