Morte – o grande mistério da vida.

A morte é inevitável. Ela está por toda parte, sempre nos convidando para um momento de reflexão e introspecção. O difícil é “pensar o impensável”, como bem esclarece RODRIGUES (1983): “Para um ser pensante, não é a morte, categoria geral e indefinida, que coloca um problema, mas o fato de que ele, sujeito pensante, morre – o fato de que eu morro” (p 17). Ou mesmo no dizer de LELOUP (2002): “A abordagem da morte, sobretudo, desperta em cada um de nós o que qualificamos de sofrimento espiritual, sofrimento diante da ausência de sentido […]” (p. 141). Assim como todos grandes mistérios, a morte intriga as pessoas por sua incompreensão.

O conceito da morte passou por uma série de transformações ao longo da história influenciadas pelos contextos sociais, econômicos, artísticos e filosóficos. A criatividade e o poder ritualístico do ser humano permitiram as mais variadas interpretações do significado da morte, evidenciadas pela diversidade cultural dos rituais pós-morte. Trata-se de um conceito dinâmico, variando conforme local e tempo:

A morte não pode ser tabu e muito menos banalizada. O Ocidente capitalista ignora sua presença. O processo de luto é banido. O terrorismo, as guerras e a violência tornaram “normal” a morte em massa, e esta deixou de ser vista como fatalidade. “A morte começa quando não levamos em conta que ela existe. Quando nem sequer nos indignamos ao ver os mortos – mortos, não porque a morte existe, mas porque não lutamos pela vida” (KOVACS, 1992, p. XV). A morte, em suma, será sempre uma transformação.

Houve um tempo em que nosso poder perante a morte era muito pequeno. E, por isso, os homens e as mulheres dedicavam-se a ouvir sua voz e tornavam-se sábios na arte de viver. Hoje, nosso poder aumentou, a Morte foi definida como a inimiga a ser derrotada, fomos possuídos pela fantasia onipotente de nos livrar de seu toque. Com isso nós nos tornamos surdos ás lições que ela pode nos ensinar. E nos encontramos diante do perigo de que, quanto mais poderosos formos perante ela (inutilmente, porque só podemos adiar), mais tolos nos tornamos na arte de viver. E quando isso acontece, a morte que poderia ser conselheira sábia transforma-se em inimiga que nos devora por detrás. Acho que, para recuperar um pouco de sabedoria de viver, seria preciso que nos tornássemos discípulos e não inimigos da Morte. Mas, para isso, seria preciso abrir espaço em nossa vidas para ouvir a sua voz. Seria preciso que voltássemos a ler os poetas. (Rubem Alves, 2003, p. 76).  

A morte tem ainda o poder de desestruturar as famílias e sociedades com a perda de entes queridos. Por outro lado, percebe-se que toda essa desestrutura tende a se reorganizar naturalmente, através do processo de luto, que deve ser exercido em sua integridade. No entanto, não é um processo simples e muitas vezes necessita-se de uma equipe multidisciplinar atuando na “morte própria” diante de uma doença terminal, ou mesmo na “morte do outro”, através do luto mal elaborado.

Diante de uma busca frenética pela imortalidade, devemos aceitar que a morte faz parte do ciclo humano. Ela é invariavelmente um componente fundamental da vida. “Para todas as coisas existe o momento certo. Existe o tempo de nascer e o tempo de morrer” (Eclesiastes 3.1-2). A natureza é cíclica e deve ser renovada, e isso só pode ser feito através do morrer-nascer. “A morte é o último acorde que diz: está completo. Tudo o que está completo deseja morrer” (RUBEM ALVES, 2003, p. 49).

O grande aprendizado reside no fato de encarar o lado educador da morte, compreendendo seu poder de conselheira:

Não, não, a morte não é algo que nos espera no fim. É companheira silenciosa que fala com voz branda, sem querer nos aterrorizar, dizendo sempre a verdade e nos convidando á sabedoria do viver […] A branda fala da Morte não nos aterroriza por nos falar da Morte. Ela nos aterroriza por nos falar da Vida. Na verdade, a morte nunca fala sobre si mesma . Ela sempre nos fala sobre aquilo que estamos fazendo com a própria Vida: as perdas, os sonhos que não sonhamos, os riscos que não corremos, os suicídios lentos que perpetramos […] Sempre que você sentir, como tantas vezes acontece, que tudo está indo de mal a pior e que você se encontra a ponto de ser aniquilado, volte-se para sua morte e pergunte se isso é verdade. Sua morte lhe dirá que está errado, que fora de seu toque nada realmente importa. Ela lhe dirá: Ainda não o toquei (RUBEM ALVES, 2003, p. 67).

A morte como organizadora, principalmente em pacientes terminais:

Ela tem o poder de colocar todas as coisas nos seus devidos lugares. Longe do seu olhar, somos prisioneiros do olhar dos outros, e caímos na armadilha de seus desejos. Deixamos de ser o que somos para ser o que eles desejam que sejamos. Diante da Morte, tudo se torna repentinamente puro. Não há lugar para mentiras. E a gente se defronta então com a Verdade, aquilo que realmente importa. Para ter acesso a nossa verdade, para ouvir de novo a voz do desejo mais profundo, é preciso tornar-se um discípulo da Morte (RUBEM ALVES, 2003, p. 74).

E finalmente, a morte como sábia:

Que sabedoria nos ensina a morte? É simples. Ela só diz duas coisas: Primeiro aponta-nos o crepúsculo, a chama da vela, o rio e nos diz: Tempus fugit – o tempo passa e não há forma de segurá-lo. E, logo a seguir, conclui: Carpe Diem – colha o dia como quem colhe um fruto delicioso, pois esse fruto é a dádiva de Deus (RUBEM ALVES, 2003, p. 90).

São múltiplos os campos de estudo da morte. No entanto, por mais que a curiosidade humana e o avanço da ciência busquem compreendê-la, ela será sempre o grande mistério da vida.

 

Sugestões de filmes relacionados ao tema

Os Intocáveis – https://youtu.be/-Fb8h4gChlU

Uma Razão Para Viver – https://youtu.be/6Uv36hXCA90

A partida – https://youtu.be/Are-SkqNX54

A culpa é das estrelas

Encontro Marcado

Antes de partir.

 

Sugestões de livros relacionados ao tema 

Em busca de sentido, Viktor Frankl
A ultima grande lição, mitch albom
O último Sopro da Vida – Paul Kalanithi
Imperador de Todos os males – Siddahartha Mukherjee
Por um Fio – Drauzio Varela
Retorno e Terno – Rubem Alves
A morte é um dia que vale a pena ser viver – Ana Claudia Quintana Arantes
Sobre a Morte e o Morrer – Elizabeth-Kubler-Ross
A Roda da Vida – Elizabeth-Kubler-Ross
História da Morte no Ocidente – Phillipe Aries
Tabu da Morte – José Carlos Rodrigues
Morte e Desenvolvimento Humano – Maria Julia Kovacs

 

Eduardo de Figueiredo Vissotto

Oncologista

Co-fundador do Projeto Mãos Dadas: Compartilhando Emoções no Enfrentamento do Câncer.

 

Créditos: <a href=”https://pixabay.com/pt/photos/galho-bloom-crescer-%C3%A1rvore-18078/”>Image</a> by <a href=”https://pixabay.com/pt/users/PublicDomainPictures-14/”>PublicDomainPictures</a> on Pixabay.

6 Comentários

  1. Daniela

    Texto lindo, tocante, lúcido! Parabéns Du 👏👏👏👏

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    • Gabriel

      Obrigado Dani, fruto de nosso árduo trabalho

      Responder
  2. Gustavo teixeira

    Exelente médico,tanto pelo lado profissional e pelo lado efetivo….muito obrigado por tudo que fez pelo meu pai e pela nossa família…

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    • Gabriel

      Obrigado Gustavo. Vcs são todos muito queridos

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  3. Carmem Lucia Luz Caixeta

    Excelentes reflexões!!! Parabéns!!!

    Responder
    • Gabriel

      Muito obrigado Carmen.

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