Como lidar com relações humanas desafiadoras em oncologia

Em oncologia a relação médico-paciente que é fundamental para sucesso no cuidado, instabiliza-se algumas vezes pelo distanciamento humano. Pacientes, frágeis diante de uma doença ameaçadora da vida, reagem com posturas defensivas, de desconfiança e medo.  Médicos, com limitação de tempo e envolvidos frequentemente em uma rotina de sofrimento e pressão, sofrem com exaustão física e emocional. Ambos médicos e pacientes, muitas das vezes, não estão preparados para uma relação empática, não são treinados para se abrir e escutar, entregar, acolher, confiar e cuidar respectivamente.

Se considerarmos todas as especialidades, encontros desafiadores e difíceis compõem menos de 20 % das relações entre profissionais e pacientes no dia a dia. Porém, em oncologia isso se torna um pouco mais comum principalmente pela carga emocional e risco de vida que envolve a área. Baseado nisso, quais são os fatores envolvidos que se pode listar no estabelecimento dessas relações conturbadas e como seria possível solucioná-los?

A Doença em si: Existem casos que cientificamente são desafiadores e complexos, trazendo muitas dúvidas e insegurança ao médico que o está conduzindo, sentimentos que são percebidos pelo pacientes, fragilizando a relação. Geralmente, são pacientes que não se encaixam nos critérios de estudos clínicos ou que fogem das orientações de diretrizes. Além do mais, com o aumento crescente de pacientes idosos com múltiplas comorbidades, em uso de polifármacia, com algum grau de déficit cognitivo ou nutricional, há uma maior dificuldade para se tomar as decisões terapêuticas do dia a dia. Assim, torna-se necessário a organização institucional de reuniões multidisciplinares, o que possibilita o envolvimento de múltiplas especialidades na discussão científica de casos. Dessa forma, os profissionais se sentem mais seguros ao se compartilhar dúvidas, receios e experiências, segurança essa que é transmitida ao próprio paciente.

O Paciente: É mais importante conhecermos que tipo de paciente tem a doença, do que qual doença tem aquele paciente. Fatores socioeconômicos, culturais, psicológicos, emocionais, espirituais, história de vida, princípios e propósitos devem estar presentes na abordagem daquela pessoa, para que esse possa receber um cuidado próximo ao integral e empático. Não conhecer detalhes da doença e do paciente fragiliza a relação. É importante tentar identificar gatilhos responsáveis e direcionar e envolver equipes de apoio (psicologia, assistência social, grupo religioso ou espiritual, programas de enfrentamento), quando necessário. Quanto ao paciente, pensamos que uma postura de entrega e confiança, de aceitação da doença e dos fatos fortaleça uma relação saudável com seu médico. Como consequência, é possível um enfrentamento adequado com otimismo e resiliência das imprevisibilidades.

Tecnologia: Sem dúvida a incorporação da tecnologia no arsenal terapêutico do câncer agrega e muito nos crescentes casos de sucesso do combate a doença. Os sistemas hospitalares de prontuário eletrônico permitem otimização de produtividade e compilação de dados para pesquisa. Porém, é importante frisar que muitas vezes no dia-a-dia, a relação médico-paciente é fragilizada por uma maior interação médico-máquina, que envolve consultas médicas rápidas, excesso de burocracias, dificultando a devida conexão humana. O profissional de saúde deve sempre tentar encontrar o equilíbrio entre tecnologia e humanidade para buscar os melhores resultados junto de seu paciente.

Médico: A rotina profissional dos médicos muitas vezes dificulta o processo: dificuldade de auto-cuidado, exaustão física e emocional, desejo de controle, pressão e cobrança própria por resultados positivos de um plano terapêutico, envolvimento emocional com processo do paciente/familiares, hipoglicemias por falta de refeições… Tudo isso pode prejudicar a relação médico paciente tornando-a difícil. Para melhor cuidar do outro, é preciso primeiro cuidar de si. Nunca é tarde para buscar o auto-cuidado e aprimorar as habilidades de comunicação com pacientes, mesmo porque muitas conversas da rotina profissional são difíceis e densas. Em situações onde as possibilidades de empatia entre médico e paciente se esgotam e a relação prejudica a ambos, o ideal é que se tenha liberdade dentro de uma equipe para indicar outro colega para tratar o paciente.

Relações difíceis em oncologia de fato existem e todos esses fatores podem estar envolvidos no processo em alguma proporção. Devemos sim como profissionais de saúde nos cuidar para evitar síndrome de esgotamento (burnout). Pacientes que estão passando por um difícil processo devem se esforçar na busca de ferramentas para o adequado enfrentamento. Assim se constrói uma relação saudável e leve.Quanto às instituições, espera-se que ofereça um ambiente humanizado e acolhedor com estrutura adequada que possibilite o melhor trabalho do médico (incluindo reuniões multidisciplinares e sistemas eletrônicos que facilitem o dia-a-dia).

Fica aqui um grande desafio para todos nós: Usemos os casos difíceis para aprimorarmos nossas habilidades nas relações humanas e otimizar o cuidado inclusive nas relações saudáveis.

Eduardo de Figueiredo Vissotto

Fonte: texto adaptado de ASCOconnection (Sharon McGee, MD)

Referências

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Créditos da foto: https://pixabay.com/pt/photos/smiley-emoticon-raiva-com-raiva-2979107/

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