A Importância do Abraço e do toque Físico Afetivo- Uma reflexão em comemoração ao  Dia do Abraço.

 

     Que o contato físico afetivo e de forma carinhosa é agradável não há dúvida, porém, uma grande questão sobre o assunto é se podemos provar cientificamente se isso é fator positivo para termos saúde.  Teorias atuais sobre saúde e doença, especificamente a Salutogênese, afirmam que além de evitarmos fatores de risco para o desenvolvimento de doenças, precisamos gerenciar recursos para enfrentarmos os eventos estressores que ocorrem em nossas vidas. Se mal manejados, esses eventos podem vir a causar doenças. Interações sociais e o contato físico são recursos gerais que possibilitam a manutenção de saúde.

     Na tentativa de comprovar os benefícios do contato físico afetuoso e principalmente do abraço, nos últimos anos alguns estudos vem nos apresentando fatos que são no mínimo intrigantes. Um estudo realizado na Universidade de Carnegie-Mellon, Pittsburgh, USA (1), tentou avaliar se o abraço pode servir como moderador ou atenuador para uma pessoa infectada pelo vírus da gripe vir a desenvolver a doença. Os voluntários eram avaliados quanto ao contato físico afetuoso antes e após a exposição ao vírus da gripe. Como conclusão eles observaram que pacientes com suporte social e abraços mais frequentes apresentaram menos sinais e sintomas da doença.

     Seguindo a mesma linha de raciocínio, outro estudo apontou que contato físico entre casais antes de estímulos estressantes em laboratório é um possível fator protetor para a liberação e aumento dos níveis séricos de hormônios relacionados ao estresse (principalmente o cortisol) e menor alteração na frequência cardíaca dos voluntários (2). Outro hormônio envolvido no stress, a ocitocina sabidamente tem uma relação moduladora com o cortisol, diminuindo seus níveis ou diminuindo a velocidade de liberação deste no sangue. Estudos avaliando as alterações causadas pela massagem relaxante demonstram que um de seus efeitos é aumentar os níveis de ocitocina no sangue (3). A importância dessa informação se refere ao fato que o cortisol pode estar relacionados ao desenvolvimento de hipertensão arterial e câncer, segundo teorias atuais (4).

     Um simples aperto de mão, quer seja de um ente querido ou de um estranho, é preditor de respostas cerebrais mais moderadas diante de um agente estressor. Foi o que o Dr. James A. Coan e dr. Richard J. Davidson comprovaram em estudo realizado nas Universidades de Wisconsin – Madison e Virginia, EUA (5) . Eles mapearam por meio de ressonância magnética do cérebro a intensidade de ativação de áreas cerebrais relacionados ao stress, comparando os resultados entre participantes que recebiam choques elétricos e, no momento do choque, estavam com suas mãos sendo amparadas ou não pelo marido ou algum estranho.

     Mais interessante ainda é que evidências atuais mostram que os nervos que conduzem o estímulo nervoso de amparo e carinho ao cérebro são muito semelhantes aos nervos que também levam as informações vindas de nossos órgãos vitais sobre nossa saúde e bem estar (6).  Assim podemos inferir que o contato físico afetuoso induz um estímulo nervoso de bem-estar que contrabalanceia algum estímulo de doença vindo de órgãos doentes. Dessa forma talvez estejamos caminhando para provar que o carinho realmente alivia o sofrimento fisiológico e não apenas o psicológico da doença, mantendo o bem-estar físico.

     Independente da forma avaliada nos vários estudos, temos ainda que caminhar muito para inferir certeza sobre as diversas afirmações relacionadas aqui. Devido aos vários vieses e diferenças metodológicas entre esses, fica difícil reunir todos os dados apresentados. Porém, o fato é que estamos tentando comprovar o que na prática já sabemos. Desde a segurança que sentimos pelo aperto de mão de nossos pais quando fomos tomar uma injeção ao alívio e melhora trazido por um famoso cafuné no momento de doença, o contato físico melhora a qualidade de vida e aprofunda nossas relações humanas. Assim, como comemoração do dia do abraço, a orientação para se manter saudável no dia de hoje é: valorize o abraço e o contato físico o máximo possível.

Dr. Gabriel Machado Leite

Oncologista.

 

Referências Bibliográficas:

1- Cohen. S, Janicki-Deverts.D, Turner. Ronald B. Doyle . W J. Does hugging provide stress-buffering social support? A study of susceptibility to upper respiratory infection and illness. Psychol Sci. 2015 February ; 26(2): 135–147.

2- Ditzena. B,. Neumannc I. D,;Bodenmannd. G; Von Dawanse. B;,. Turnerf R.  A; Elhlerta.B;Heinrichse. M. Effects of different kinds of couple interaction on

cortisol and heart rate responses to stress in women. Psychoneuroendocrinology (2007) 32, 565–574.

  1. Li Q, Becker B, Wernicke J, Chen Y, Zhang Y, Li R, Le J, Kou J, Zhao W, Kendrick KM.Foot massage evokes oxytocin release and activation of orbitofrontal cortex and superior temporal sulcus.Psychoneuroendocrinology. 2019 Mar;101:193-203.
  2. Premal H. ;Thaker and Anil K. ;Sood. The Neuroendocrine Impact of Chronic Stress on Cancer. Semin Cancer Biol. 2008 June ; 18(3): 164–170.
  3. Coan J.A,. Schaefer H.S,. Davidson R.J. Lending a Hand

Social Regulation of the Neural Response to Threat. Psychological Science 2006 17: 1032.

  1. M. Björnsdotter · I. Morrison · H. Olausson.REVIEW -Feeling good: on the role of C Wber mediated touch in interoception.  Exp Brain Res (2010) 207:149–155

 

Créditos Imagem: Bigstock.

2 Comentários

  1. Elmo Castro

    Há alguns anos venho, apesar de leigo , afirmando esta teoria,pois acontece comigo . Sinto necessidade de afeto pelo toque. O abraço nem se fala o bem que me faz nesta trajetória da terceira etapa da vida

    Responder
    • Gabriel

      Muito obrigado pelo retorno, Elmo!

      Responder

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Free WordPress Themes, Free Android Games